23 Fevereiro 2011

“Não acredito em Deus, mas sinto-Lhe a falta”. Começa assim o último livro do romancista britânico Julian Barnes, autor de obras como Amor, etc. ou Arthur & George.


Nele, o escritor, que até hoje se considera agnóstico mas que antes foi ateu, decidiu enfrentar o medo da morte perguntando-se: como pode um agnóstico temer a morte se não acredita que haja uma vida depois desta? Como se pode ter medo do Nada?


A partir destas perguntas, que o jornal The New York Times publicou, Barnes elaborou uma elegante memória da sua vida e uma meditação sobre Deus e a tanatofobia, que não deixa ninguém indiferente.


Sob o título “Nothing to be frightened of” (Nada a recear), a obra é um percurso pela vida familiar, uma troca de ideias com o seu irmão (o filósofo Jonathan Barnes, uma reflexão sobre a mortalidade e o medo da morte, uma comemoração da arte, uma dissertação sobre Deus e uma homenagem a outro escritor, o francês Jules Renard.


Desassossego e tanatofobia


Barnes, que sofre de tanatofobia (medo da morte persistente, anormal e injustificado), pensa diariamente na sua morte ou imagina-se em situações em que morreria, como apanhado entre as mandíbulas de um crocodilo ou num navio que se afunda.


A morte cria-lhe um grande desassossego: teme a diminuição da energia, que a fonte seque, que se desvaneça a luz. “Olho em redor, as minhas amizades, e posso ver que a maioria delas já não são amizades mas, pelo contrário, a lembrança da amizade que tivemos”.


Barnes, que viveu a velhice dos seus pais e a sua morte, escreve também que “apesar de na vida nos libertarmos dos pais, eles parecem reclamar-nos na morte”.


Mas, para o escritor, a fé religiosa não é uma opção para todo este desassossego e diz “não tenho fé a perder… Nunca fui baptizado nem frequentei a catequese aos domingos. Nunca fui à missa… e entro constantemente nas igrejas só por razões arquitectónicas”.


Religião moderna


Para Barnes, a religião cristã perdurou unicamente porque é “uma bela mentira… uma tragédia com um final feliz”. Mas as alternativas modernas à fé cristã também não o confortam.


O autor fala, por exemplo, das terapias como formas contemporâneas de religião. Delas diz: “o céu secular moderno da auto-realização, do desenvolvimento da personalidade, das relações que nos ajudem a definir-nos, de um trabalho com certo status… o acumular de aventuras sexuais, de idas ao ginásio, de consumo de cultura. Tudo isto nos aproxima da felicidade, não é verdade? Este é o mito em que queremos acreditar”.


Barnes só encontra consolo na ciência, que diz: todos estamos a morrer. Até o sol. O homo sapiens está a evoluir para novas espécies às quais não importa quem fomos, nem qual foi a nossa arte ou a nossa literatura. Qualquer saber cairá no completo esquecimento. Cada autor chegará a converter-se num autor não-lido.


Definitivamente, diz Barnes, as pessoas podem temer a sua própria morte mas, na verdade, o que somos? Simplesmente um conjunto de neurónios. O cérebro não é mais que carne e a alma é, simplesmente, “um relato que o cérebro conta a si mesmo”.


Entrar e sair


Quanto à individualidade, esta não é mais que uma ilusão. Os cientistas nem sequer encontraram evidências da existência do “eu”, assinala Barnes, que é algo que dizemos a nós mesmos. Não criamos pensamentos, mas os pensamentos criam-nos a nós próprios. O “eu” que tanto amamos, só existe na gramática.


Barnes afirma, por outro lado, que não existe separação alguma entre “nós” e o universo. Somos só matéria, unidades de “obediência genética”. A sabedoria, segundo ele, consistiria em assumir isto e em “não pretender mais nada, em descartar o artifício…” Da mesma forma que os artistas, quando atingem a maturidade, ficam com a simplicidade.


Assim entra o autor na idade adulta, com estas reflexões sobre a mortalidade humana e a maneira de a enfrentar, conversando com os leitores sobre o medo mais universal, segundo o Washington Post.


“A morte é para mim o único aspecto espantoso que define a vida. A menos que não estejamos completamente conscientes dela, não é possível chegar a compreender em que consiste a vida, a menos que se saiba e se sinta que os dias de vinho e rosas são limitados, que o vinho azedará e as rosas murcharão na sua água pestilenta antes de tudo ser abandonado para sempre, não haverá contexto para que estes prazeres e curiosidades nos acompanhem no caminho para o cemitério”.


Enfrentar a realidade da morte é tão impactante, que Barnes assegura invejar as pessoas que o fazem com fé. Certamente, aqueles que desfrutam do dom da fé religiosa contam com uma vantagem face aos que a não têm. O crente moribundo atravessará uma porta de entrada, enquanto que o resto dos mortais verão na morte só uma porta de saída."

Yaiza Martínez


Gostei muito... Talvez por ser particularmente difícil para mim lidar com a minha própria mortalidade.
Mas isso fica para outro dia.

6 motivos para continuar a escrever por aqui:

Libelinha☆ disse...

Fiquei com vontade de o ler... Não me queres emprestar o livro?
Envias pelo correio e depois de lido reenvio-te pelo correio =)

Beijinhos ;P

Brown Eyes disse...

Será que o crente moribundo atravessará uma porta de entrada? Não. Em todas as religiões há comportamentos a cumprir e quem os não cumpre sucumbe na hora da morte, não há ressurreição para essa gente. Portanto não há aqui diferença entre crentes e não crentes. A diferença estará no comportamneto e na consciência de cada um. Uns terão a mesma super pesada e outros leve. Não temo morrer, temo sofrer. Tenho pavor da dor, da dor que certas doenças provocam. Apenas isso. Beijinhos

Johnny disse...

Eu, que todas as noites gemo um bocadinho ao lembrar-me da morte, partilho as reflexões que este senhor fez aqui, parafraseado, claro por vossemecê.

Não há conforto!

(só não percebo a definição de tanatofobia como o medo da morte persistente, anormal e injustificado, já que, concordando com a parte do persistente e anormal, me custa a concordar com a parte do injustificado, porque, convenhamos, é para ter medo)

Ana disse...

Libelinha* por acaso não o tenho mas vou ver se o arranjo por aí algures. se conseguir depois trocamos livros. ;)
bjinhos

Ana disse...

Brown, é uma questão de fé, penso. não na religião mas que a vida não acaba na morte. infelizmente, é muito difícil para mim encarar o vazio que ela acarreta. torna-se muito penoso.

bjinhos.

Ana disse...

Johnny, sei o que custam essas horas, de escuro, de vazio. esses temores que nos dão suores frios, que nos desesperam e levam à insanidade.

Nunca haverá conforto para mim. temo é que isso leve a uma vida angustiante.

concordo. não penso que seja um medo injustificado. mas, pensando no que o autor diz, ter medo de nada é um pouco estranho. mas é O NADA que eu temo.